Entre em qualquer página sobre vegetarianismo no Face ou no Insta, clique em um post aleatório e comece a ler os comentários: eis que a palhaçada começa.
Primeiro que tem aquele povo a quem falta louça pra lavar, livro pra ler, série pra assistir, trabalho pra fazer, sei lá, qualquer coisa útil pra ocupar o tempo e precisa mostrar ao mundo sua cretinice e entra lá só pra criticar, encher o saco e soltar frases burras contendo as palavras bacon, bife, tomates gritam, hipocrisia e afins.
Mas ainda mais ridícula do que o povo que não é vegetariano e entra nesses grupos só pra causar, temos uma outra categoria: vegetarianos criticando outros vegetarianos. E essa, com sua constante chuva de palavras como hipocrisia e especismo, é a que me mata. A gente entra nesses grupos esperando encontrar um ambiente propício pra trocar ideias, falar de suas experiências, receber dicas, e ao invés disso vê um monte de gente se digladiando pra ver quem é mais vegan.
[Ouvi dizer que morre um panda cada vez que uma pessoa diz hipocrisia ou especismo. A mesma coisa acontece quando alguém diz tendência, in love ou digital influencer.]
Meses atrás encontrei um ótimo perfil no Insta que falava sobre produtos veganos que podem ser comprados em qualquer supermercado. Tinha sucos, bolos, biscoitos, balas, docinhos, sorvetes e mais um zilhão de coisas, mostrando que pra ser vegano não precisa excluir todas as gordices do cardápio nem viver só de alimentos orgânicos e crus, é só uma questão de adaptação. Quando alcançou alguns milhares de seguidores, chegaram os enchedores de saco: "Mas esse produto não é vegano! A empresa que fabrica esses biscoitos também produz biscoitos contendo leite e ovos."
Pois é. Acontece que ainda não escreveram O Livro Sagrado do Veganismo, então enquanto isso não acontece, será que dá pra deixar cada um ser vegano como pode e como entende correto? O mundo está globalizado, meu povo. Empresas compram outras empresas o tempo todo e isso torna difícil saber quando uma empresa é 100% vegana ou não, porque pode ser que uma empresa vegana seja só um braço de uma grande empresa não-vegana. Se uma determinada empresa produz alimentos veganos/vegetarianos e outros não, que tal escrever pra ela demonstrando seu interesse nos primeiros? Que tal convencer mais algumas pessoas a fazerem isso? É um feedback mais efetivo do que o boicote total sem comunicação nenhuma.
E se for pensar mais profundamente, aquele produto vegano pode estar sendo vendido em uma embalagem não reciclável que só vai poluir o planeta. Podem ter morrido roedores durante a colheita dos grãos de que ele foi feito. Ele foi transportado em um veículo que queima combustível fóssil e polui a camada de ozônio. Mon amour, nada é perfeito nesse mundo, nem mesmo seu biscoito vegano produzido pela empresa vegana que você ama. Então vamos ter bom senso antes de sair rosnando.
Continuando a minha saga, outro dia num grupo de vegetarianos alguém escreveu que recentemente tinha se dado conta do quanto podia fazer em defesa dos animais e do planeta. O cara relatou que tinha se tornado vegetariano há alguns anos, que passou a fazer compras mais conscientes pra causar o mínimo desgaste ao meio ambiente, que tinha inclusive adotado um cachorro de rua que estava abandonado e que deu a ele uma vida boa e feliz, que a vida dele próprio estava mais leve, e que estava satisfeito com o impacto positivo que suas atitudes vinham tendo nas pessoas que convivem com ele. O que algumas pessoas responderam?
"O que adianta adotar um cachorro, se você tem a morte no prato?"
"Espero que a ração do seu cachorro seja vegana, caso contrário sua 'atitude' não adiantou nada."
"Nem vegan você é e tá achando que faz muita coisa."
Sério. Eu quase tive um surto psicótico.
O cachorro que estava vagando pela rua, dormindo pelos cantos, sendo chutado, passando fome e frio, correndo risco de ser atropelado NÃO ESTÁ NEM AÍ se o cara que o adotou é vegano. O moço em questão deu a ele uma casa, comida, cuidados veterinários, amor e uma cama confortável pra dormir, sem contar que ele não precisa mais se preocupar se vai ser agredido ou se terá algo pra comer hoje. Assim como o porco que eu adotei não está interessado em saber o que eu como. Ele está muito ocupado vivendo - o que não aconteceria se eu não o tivesse levado pra minha casa.
O cara do comentário original deve ter ficado tão apavorado com a estupidez que outras pessoas escreveram em seguida que apagou o texto dele.
Isso não é uma regra, mas tem muito vegano por aí se achando a última Coca-cola do deserto só porque é vegano. Ser vegano é ótimo, é relevante pro planeta, é uma demonstração de respeito aos animais e ao meio ambiente, mas está longe de te tornar uma pessoa perfeita. Tornar-se vegano não transforma ninguém num elfo de Valfenda. Ser vegano não dá a ninguém o direito de apontar dedos na cara das pessoas nem de dizer que aquilo que elas fazem (em prol do meio ambiente e dos animais) é ridículo.
Eu sei que, muitas vezes, a vontade de defender a natureza e os animais é tão grande que, na ânsia de fazer alguma coisa por eles, a gente pode acabar se equivocando e sendo indelicado (ou muito grosso mesmo, kkk) com aquela pessoa que adora dizer que é super carnívora, com aquela que diz que usa pele mesmo e não vai parar, com aquela que gosta de pescar, com aquela que usa seu blog pra fazer propaganda de produtos testados em animais. Mas a crítica destrutiva não leva a nada, a não ser à criatura em questão pegar ainda mais bode dos naturebas.
Eu sou da opinião de que é impossível fazer tudo, mas é melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada. Claro que fazer muito é melhor do que fazer pouco, mas qualquer atitude, pequena ou grande, é importante. Ser vegetariano, ser vegano, separar o lixo, comprar só o necessário, não desperdiçar água nem energia, usar menos o carro, valorizar o comércio local, adotar um animal, cuidar dos animais de rua, não comprar produtos testados em animais, assinar petições, tudo tem sua relevância. Apoiar quem tenta fazer alguma coisa é importante. Menosprezar os esforços dos outros não leva a nada.